Começo de manhã, eu estava entrando em minha sala quando a minha assistida, estava saindo da sala da triagem, segurando o dossiê, com a respectiva senha (passe) que autoriza a mesma adentrar no meu pequeno"office". Bom, eu abri um largo sorriso, peguei os papéis das mãos e disse: "(...) -Vamos é comigo!". Mostrei-lhe o caminho, abri a porta da sala e apontei para a cadeira. Ela seguiu a minha orientação e dirigiu-se a cadeira. Eu também a segui, e fui me acomodar. A minha colega disse que a internet tinha "caido", eu estava iniciando o procedimento de ligar o computador, e, "sorri com os olhos" para ela, tentando dizer: " (...) coisas de trabalho"(...).
De repente, fui avisada que a internet havia se restabelecido, eu já estava sentada e então de posse dos documentos, olhei para ela, percebi que estava com uma feição de tristeza e desalento, como se tivesse perdido a vontade de viver, eu dei-lhe outro sorriso e comecei a lê o resumo da estória da vida dela. Ela estava postulando um Divórcio Litigioso com Alimentos para os filhos menores, Guarda judicial e regulamentação de visitas. Estava separada há mais ou menos quatro dias e falava com convicção de que não voltaria. Eu iniciei as perguntas básicas atinentes a qualificação e endereço, para confirmar as informações, e ai, ela começou a chorar bem baixinho.
Eu parei o que estava fazendo e deixei ela respirar, soluçar, passar a mão no rosto querendo esconder a vergonha e a tristeza aparentes. Eu pedi a uma estagiária que providenciasse um copo de água para ela, com a intenção de reanimar o organismo, e, enquanto isso, caladinha, mentalizei uns mantras, mentalizei o nome de Deus e,o, dirigi em direção ao coração espiritual dela. Depois de tomar uns goles de água, ela, me disse que ele a havia deixado por uma outra mulher, sem, nenhuma explicação, e, que os meninos estavam tristes em especial o maior que tinha apenas 10 anos de idade.
Eu lhe perguntei, se ele tinha mudado o comportamento de alguma forma, ela meneou com a cabeça e, respondeu, que tinha notado, mas, que fingiu não notar; perguntei-lhe, como era o relacionamento dele com os meninos, ela me respondeu que ele era muito bruto e que descarregava toda a ira descontroladamente em cima do mais velho, e por essa razão, ela não saia de casa, para tomar conta dos meninos. Ela continuou falando que os vizinhos foram na casa dela contar que o ex-marido a tinha deixado por outra mulher, inclusive, que ele teria viajado para uma cidade do sudeste do país, e, detalhe, viajou com a outra mulher e os filhos dela. Deixando para trás ela e dois meninos.
Ela tornou a chorar e depois conteve-se. Eu perguntei onde ela estava morando. Ela me respondeu: " (...) Graças a Deus eu tenho a minha mãe e o meu pai vivos, e, eles estão me apoiando em tudo(...) ". Assim que ela terminou de concluir a frase, eu falei viu, como Deus é bom! Ele sempre está ao nosso lado, para o que der e vier, o, problema é que nós sempre estamos imersos em nossos problemas escuros, os quais nos impede de perceber a presença dele e de toda a grandiosidade que ele é.
Ai prossegui, você acabou de falar que tem a sua mãe e o seu pai, pronto, então, você está protegida e nessa casa tem o amor de seus pais,(...) ela ai continuou, e, dos meus irmãos. Eu segui com o comentário (...) Então querida, fique tranquila, Deus sabe de tudo, ele está resolvendo a sua vida e a dos seus filhos. Acalme-se, um dia você terá o discernimento para entender que essa situação aconteceu para o seu melhor (...) Ai continuei, existe alguma coisa que você quer mais nessa ação de divórcio, ela respondeu, sabe moça: (...) Eu quero tranquilidade e paz ( ...) ela suspirou como se sentisse um peso (...) nós temos um carro que compramos juntos, mas, eu não vou querer dividir, deixei para ele, eu o abençoo na vida que ele escolheu! para mim, eu quero consegui um trabalho para manter os meus filhos, e viver na tranquilidade. Todo mundo que veio até mim, disse que esse divórcio foi um livramento. Eu acho que seja isso(...) .
Deixei ela falar quietamente e disse-lhe, (...) tá vendo, o que a senhora fez, abriu mão de um carro, trocando-o por paz. A troca é grandiosa e justa. Olhe, vou te contar que eu recebo nesse meu bireaux, homens e mulheres que dividem colher e garfo. Ela ai, deu um pequeno sorriso e disse: (...) Misericórdia! (...) Eu respondi: (....) olha, ela sorriu! (...), ai prossegui: Sim querida, acontece muito disso aqui, mas, o que eu posso fazer, eu apenas aconselho da forma mais tranquila que dividam os bens, mas que retirem toda e qualquer raiva do peito, porque não faz bem. (...).
Ela ficou calada e disse, sabe de uma coisa, (...) - É melhor que ele vá e viva em paz, do que ver, ele maltratando os meninos que são muito pequenos, em especial o meu pequeno de dez anos. Um dia desses, o meu pequeno pediu-lhe para comprar aquele brinquedo que todo menino tem, aquele que roda no dedo, e ele respondeu com grosseria e mandou o menino trabalhar (...).
Aquilo doeu em mim profundamente, porque me fez lembrar meus dois pequenos que tem as idades bem próximas aos dela, e, nesse diapasão, me deu um estalo no meu coração, uma pergunta minha tinha sido respondida, eu senti uma grande felicidade em meu coração, eu explico.
Vou abrir um parêntesis para contar a estória do Spinner. Eu também tenho dois lindos pequenos, somados, com os pequenos dos meus irmãos, formam um grupo grande de pequenos, e eles têm esse brinquedo que virou febre. Tudo bem, na semana passada, o meu filho mais velho, estava brincado com o spinner dele, e, com o do primo, e, sem querer deixou cair no chão o brinquedo do primo. Eu estava na cozinha quando ele me apareceu cabisbaixo e com medo do que tinha acontecido. Ele me trouxe o brinquedo, eu falei que ele devia montar, fiquei olhando ele reencaixar, peça por peça, com uma calma e precisão, só, que teve uma pecinha que quebrou, ai, nós colamos, e ficou uma rachadurinha aparente. Olhei para o meu filho, depois de bronquear, e disse vou resolver. Eu decidir comprar um novo da mesma cor e dar para o meu sobrinho, pois, afinal de contas não era justo, entregar o spineer com uma rachadurinha, momento em que meu filho pediu desculpas, e o meu sobrinho pediu para ver o antigo, eu o mostrei, ele disse que não precisava ter comprado outro. Eu respondi que não, que o certo era ter feito aquilo.Tudo resolvido em família. No final da noite, eu fui ao meu filho e perguntei-lhe:
" (...) Posso ficar com um desses ai? porque ele estava com o dele, e o da rachadurinha(...)
" (...) Ele respondeu: Fique com o que a senhora quiser, mamãe!
" (...) Então eu peguei o brinquedo, o acondicionei na caixinha e o coloquei na minha bolsa.
" (...) Antes de meu filho dormir, ele me perguntou para que você quer mamãe?
" (...) Eu respondi: Não sei não, mas, sinto que ele tem que ficar comigo dentro da bolsa. (...)
" (...) Ele assentiu positivamente e foi dormir.(...)"
Esse brinquedo estava na minha bolsa, há mais ou menos quatro dias, quando eu abria a bolsa o via, dançado para lá e para cá, eu não entendia porque, não esboçava nenhuma reação dentro de mim, para tirá-lo de lá. Ai, no momento em que ela me disse aquilo, eu já sabia o que fazer com o Spineer, eu me levantei, peguei a minha bolsa, e fui falando.
(...) Se a senhora não se incomodar, eu tenho um desses aqui comigo, a única questão é que ele tem uma pequena rachadura, aqui, apontei com o dedo, mas, ela não impede que ele funcione em nada. Ele está rodando e brilhando, e ai eu demonstrei (...)
Ela ficou surpresa, pegou o brinquedo das minhas mãos, eu mostrei que ele estava funcionando bem legal. Eu escrevi na caixinha o nome do filho dela, e disse que tinha sido Papai do Céu que tinha mandado para ele, e logo abaixo, escrevi, estude e seja feliz. Deus te ama (...).
Ela estava tão quieta e a feição do choro se desfez, perguntou o meu nome e me abençoou, eu terminei o atendimento e a liberei.
Agora eu entendi porque o meu filho derrubou sem querer o Spinner do primo, e essa ação desencadeou uma série de atos que juntos foram responsáveis e providenciais no sentido de cumprir a vontade de Deus. Eu sabia que eu deveria entregar o brinquedo para a minha assistida, naquele momento. Eu sei porque o brinquedo entrou na minha bolsa, porque ele já tinha um endereço para ir.
Estejam atentos aos sinais!
Namasté a todos.
Silvia França de Souza Morelli
