segunda-feira, 15 de maio de 2017

A Força da Verdade



                 Sim, eu estava bem mergulhada em meu trabalho, dia normal, cheio de atendimentos, meio da manhã, esperando a próxima senha ser liberada, pelo outro setor. Como já comentei anteriormente, eu trabalho diretamente com o público, o meu setor é o Primeiro Atendimento, nele nós realizamos o peticionamento das ações a serem propostas pelos assistidos; nós recolhemos todos os documentos indispensáveis à propositura da ação e explicamos todo o procedimento. 

                Pois bem, naquela manhã adentrou a sala, uma mulher, jovem, branca, alta, de cabelos pretos, os lábios tinham um certa coloração de batom, havia um riso em sua face. Os trajes eram: uma calça jeans e uma blusa surrada, não havia uma combinação, estava com uma bolsa confeccionada por ela mesma.    
    
            Ela entrou olhando para mim, eu fiz um aceno com a mão afirmando com a cabeça que era a responsável pelo atendimento dela, dai, ela se dirigiu em minha direção e entregou-me uma série de documentos que estavam em suas mãos acomodando-se numa cadeira em frente ao meu bireaux. Eu dei- lhe bom dia e me apresentei, explique-lhe o que iria ocorrer e fui dar uma olhada na documentação, para iniciar a petição. Enquanto os meus olhos corriam toda a documentação ali apresentada, pois, era uma Ação de Guarda em relação a filha dela,  a questionei porque ela tinha dado a guarda da filhinha, ela me respondeu com serenidade:

          " (...) -Eu não abri mão de minha filha, eu tive que fazê-lo, porque eu estava presa (...)!

            Assim que ela terminou de falar, eu que estava com a cabeça um pouco baixa, pois estava olhando toda a documentação, levantei o olhar para ela imediatamente, exibindo uma feição de interrogação bem grande.

              Ela então apontou entre tantos documentos que estavam comigo, um que estava no final do dossiê, era um Alvará de Soltura explicando que ela estava sendo beneficiada com o sursi processual, e dai, se estabeleceu um grande hiato de dúvida em minha mente, mas, rapidamente ela começou a narrar o fato.

            Ela disse que havia se envolvido com um homem e que ficou loucamente apaixonada, ao ponto de fazer absolutamente tudo o que ele quisesse e pedisse em troca do amor dele, só que, ele começou a pedir-lhe para transportar pacotinhos de drogas de um lado para o outro, assim, como  um "aviãozinho", e nessa esteira, ela praticou isso diversas vezes, sem pensar nas consequências, ela fazia por uma paixão que a deixou cega.

           Ela contou que foi alertada por várias pessoas, mas, mesmo assim não conseguia ouvir até o dia que a policia a prendeu em flagrante delito.

         Contou que foi levada pra delegacia apuraram tudo e logo em seguida foi pra prenitenciária, disse que em relação a filhinha, a única alternativa a fazer era entregar a guarda da menina para a sua irmã, o que foi foi feito. Disse que estava sendo liberada, mas, que aprendeu muito com a situação, e que estava cumprindo o sursi dela.

           Eu perguntei  se ela tinha emprego?

           Ela me respondeu muito feliz!!!!!!

          "(....) Sim,  eu estou empregada numa lanchonete (...)",

           Eu olhei para ela bem surpresa!!!!!
         
           Ela sorriu com os olhos quando me viu a fitar, face a resposta positiva e vibrante.

           Ora, ela era uma ex-custodiada, entenda... não me interpretem mal, ela havia saído recentemente da penitenciária, e  já estava empregada!

                Ai não me contive, lancei-lhe outra

              " (...) Como foi isso? (...)"

                 e, Ela respondeu:"  (...) Eu apenas contei a VERDADE !!!!(...)"

           "  (...) Naquele dia eu sai resolvida para procurar emprego, então, no início da minha busca parei em frente a uma lanchonete, e olhei para dentro , vi uma mulher atarefada, ofereci-me para ajudá-la. Ela perguntou o que você faz? Eu respondi tudo o que a senhora quiser, ela não titubeou, acenou para eu entrar, eu entrei.(...)"

                Ela deu uma pausa, suspirou e continuou.

            "  (...)   Olhe... Dotôra... disse ela, eu lavei do banheiro à porta da calçada e, no final de tão rápida que eu estava, comecei atender as pessoas para ajudá-la. No final do dia ela me disse que queria me contratar e que me pagava salário, fiquei feliz, mas eu me senti na obrigação de contar-lhe a VERDADE SOBRE A MINHA VIDA, para.... assim...., eu queria começar do zero, sem mentiras, com tudo aberto pra mim, para me sentir livre de tudo. Contei tudo, senti-me aliviada. A minha patroa ouviu tudo e disse que iria fazer uma experiência comigo. Pronto eu estou lá ....seis meses. Agora eu vim buscar a guarda da minha filha.(...)".

           Quando ela terminou a fala, me disse que aprendeu a ser assim, quando estava na penitenciária, ela disse que quando estava lá, tentou a todo custo, aprender coisas úteis, disse que aprendeu a fazer bolos e pães, que aprendeu a bordar, costurar, disse que tentava preencher os dias com afazeres que a fizessem produtiva. Disse que sorria muito para todas que faziam parte da penitenciária. Ela finalizou dizendo que aprendeu muito quando estava presa, do que quando era livre.

             Eu ouvi todo aquele depoimento e, fiquei tão feliz com tudo, e muito emocionada, senti que eu estava aprendendo uma enorme lição sobre a VERDADE.

             A verdade que transforma vidas, vidas que evoluem com essa energia que se propala por todo o universo ajudando todas as outras pessoas.

                      Eu fui inundada por essa energia positiva a da FORÇA DA VERDADE.

                      O mundo cresceu!


      

                   

                

         

              

              

        

Nenhum comentário: