sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Termômetro









             Na última quinta-feira, eu cheguei em casa muito cansada, mas também, depois de um dia de trabalho, com muitos atendimentos com pessoas psicologicamente abaladas, exalando vibrações de todas a sorte, as quais se unem a minha e a dos meus colegas.

              Haja luz de Deus!

             Bem, todas as vezes que eu saio do trabalho, eu tento sentir se o meu coração está em paz, se eu conseguir senti-lo, significa que consegui realizar a minha missão diária!  (a vontade de Deus).

             O meu coração é o termômetro!

       Pois bem, continuemos, eu trabalho no Núcleo de Organização e Gestão de Primeiro Atendimento e Ajuizamento, traduzindo, trabalho no atendimento direto com as pessoas que se dirigem ali, cheias de problemas cabeludos, ávidas por soluções que não tenham prazos, porque querem sair dali, assim.... para falar com o juiz.

               Antes de sentarem com os papéis, já perguntam:

              " (...) - quando eu falo com o juiz?  ou,

                        - você vai me dizer o dia da audiência? (...)"

        Peço para sentar e se acomodar recebo os documentos e tento de uma forma meridiana, tranquilizar a pessoa e demonstrar como será o caminho percorrido, esforço-me em demasia para destrinchar todo o caminho das regras e acabar com as dúvidas, enquanto estou fazendo a inicial.

              Eu sempre me vejo na ponta do Iceberg!
     
          Olha, eu e os meus colegas temos que ser pacientes mesmo, porque em nossa pequena sala entram pessoas educadas, tranquilas, cuidadosas, caladas, em que pese, se encontrarem ali em busca de algo, de uma mera explicação, um farol, um acalanto, é acreditem, há pessoas que entram para tão somente pedir um café quente. Como também, adentram ali seres totalmente desequilibrados emocionalmente abalados que ao menor sinal de negativa por qualquer razão, nos agridem sem pestanejar.

              É compreensível, não posso aquilatar o que estão vivendo!       

           Bem, naquele dia, eu havia saído da sala para poder respirar um pouco, e também, procurar saber, como estavam os atendimentos, e, assim que sai, me deparei com uma mulher sentada no degrau de entrada do órgão que trabalho, com um olhar e aspectos cansados, e tinha em seus braços, completamente dormindo seu filho, respirando de boca aberta, aparentando uns oito anos, e uma menininha faceira, filha dela também, que estava andando pra la e para cá.

          Perguntei se já tinha sido atendida ela me respondeu com a cabeça fazendo sinal negativo, peguei a senha de suas mãos, já molhada de suor, e a encaminhei para sala. Ao entrar na sala que estava mais gelada, face o ar condicionado, senti que ela descansou um pouco e também porque conseguiu sentar- se e recostar-se na cadeira, dali, iniciei o atendimento, perguntei em que eu poderia ajudá-la. Ela então me disse que gostaria de ajuizar o pedido de guarda judicial dos meninos e começou a chorar, com muito cuidado, dizendo que o  ex- companheiro era usuário de drogas, que de tempo em tempo ia na casa dela para fazer-lhe algo, perguntei se ele prestava alimentos as crianças, ela disse que não e que não queria, eu falei da importância do pedido de alimentos, (ela) me interrompeu e disse que não era necessário pois ela trabalhava vendendo água.

           Eu senti tanta dor, agonia, fome, descaso, preocupação, medo e escuridão naquela mulher que, resolvi parar de falar e perguntei, então? 

           O que é que a senhora quer?

          Eu quero a minha mãe, e chorou (.....) chorou muito, eu quero voltar para a casa de minha mãe, ela mora em São Paulo......

         Nossa que forte, a emoção me conteve, tentei não perder a razão e fui providenciar resolver aquilo. Conseguimos chamar a assistente social que foi ao encontro dela e disse que conseguiria as passagens dela e dos filhos, explicou como seria e deu-lhe uma lista de documentos para ela trazer.

             Ela abriu os olhos, senti que estava menos preocupada e um pouco mais aliviada.

            O menino dela acordou , pulou dos braços e pediu para ir embora, ela ensaiou um sorriso e disse que voltaria munida dos documentos.

               Eu senti um aquecimento no meu coração!( o Termômetro)!

              Eu não sei se a estória dela era verdadeira, pode ser que não, mas o importante é que o meu atendimento foi.


                  Então, foi essa razão do cansaço, mas eu estava feliz.


                          Silvia França de Souza Morelli

                  







Nenhum comentário: